Antigo Mosteiro de Oliveira Santa Maria

Freguesia do concelho de Vila Nova de Famalicão, Oliveira Santa Maria tem como padroeira Santa Marinha (Nossa Senhora da Assunção). Estiveram anexadas a esta freguesia as de S. Tiago de Figueiredo e de S. Martinho dos Leitões. Oliveira Santa Maria teve um mosteiro de Cónegos Regrantes de Santo Agostinho (Cruzios), edificado junto ao rio Ave. Foi seu fundador Arias de Brito, em 1033, que lhe ofereceu todas as herdades que possuía na Vila de Oliveira, em Carrazedo e em Subilhães.

O seu primeiro Prior foi D. Antão. O convento foi unido ao de Santa Cruz, em Coimbra, em 1599, e para lá passaram todas as rendas. Todavia, parte destas e o padroado da igreja passaram para o mosteiro da mesma ordem, S. Vicente de Fora, de Lisboa.

A ORIGEM. O antigo mosteiro de Oliveira suscita controvérsia quer em relação à sua localização geográfica inicial, quer no que respeita ao nome(s) do(s) fundador(es). Tratando-se de um domínio monástico de tradição visigótica, torna-se extramente difícil apurar a sua origem e desenvolvimento em épocas remotas. O mosteiro conheceu uma vida própria em tempos bastante recuados, da qual, todavia, nada nos foi possível apurar. Os dados mais antigos que existem reportam-se a 1033 e, por isso, fica desde já explicito que sempre que nos referimos à “fundação” ou aos “fundadores” do mosteiro, o sentido destes vocábulos devera ser encarado com reticencias, uma vez que não corresponde, em vigor, ao significado que usualmente se lhe atribuiu.





A LOCALIZAÇÃO. Se é possível encontrar consonâncias quanto à localização deste cenóbio, estas limitam-se `sua incontestável instalação no julgado de Vermoim, termo da Vila de Barcelos, circunscrição arquidiocesana de Braga. Já no que respeita à determinação exacta do local da sua implantação a realidade é mais complexa, pelo menos para os seus tempos mais longínquos. Segundo alguma tradição nomeadamente as “Miscelâneas Manuscritas” o Mosteiro de Oliveira teria funcionado, inicialmente, na Capela de Santa Maria de Perrelos, situada na freguesia de Delães. Por esse facto ficou o mosteiro obrigado a dar tributo `Mitra bracarense, anualmente 24 alqueires de centeio, acrescidos do “Santos Óleos”. Não existe, contudo, suporte documental que permita atestar a efetiva implementação desta instituição monástica em Perrelos, sabe-se no entanto, que ainda em 1504 o mosteiro de Oliveira pagava ao arcebispo de Braga, pela emida de Perrelos os tais 24 alqueires, sendo que agora não eram de centeio, mas sim de pão meado. Segundo essa obra fica-se sem saber quem são os seus fundadores, bem como a data em que tal facto teria ocorrido. Apenas fica o registo de que a capela de Perrelos distava meia légua de Santa Maria de oliveira que, segundo este relato, seria já uma segunda fundação da casa, resultante da transferência desta comunidade religiosa de Perrelos para este local.

Em concordância com esta asserção existe o depoimento de FR. Timóteo dos Mártires segundo o qual o mosteiro de Oliveira funcionara inicialmente em Perrelos.

OS FUNDADORES. São várias as teses relativamente à “fundação” do mosteiro que se implantou em Oliveira.

Uma das teses, defendida por Frei Timóteo dos Mártires refere que foi D. Arias de Brito, enquanto rico homem, que terá fundado o mosteiro em Perrelos, em data desconhecida. Contudo, este autor não apresenta qualquer documento que fundamente a sua afirmação.

Por seu turno, D. Nicolau de Santa Maria, na Crónica da Ordem de Santo Agostinho aponta Arias de Brito como tendo fundado o Mosteiro em 1033, acrescentando que, à data já ai existiam clérigos.

Assim sendo, Arias de Brito teria agradecido a D. Antão com vastas doações destinadas à subsistência da comunidade religiosa que este último já dirigia. Tal formulação poderia dar consistência a teoria de que o mosteiro havia funcionado anteriormente noutro local, designadamente na capela de Santa Maria em Perrelos, tendo-se deslocado para Oliveira, onde já se encontrava em plena atividade quando, em 1033, D.Arias decide contemplar o seu prelado principal com um amplo numero de benesse. Na verdade, mesmo que os factos se tenham se tenham desenrolado desta forma, D. Arias de Brito não deverá ser encarado como fundador do mosteiro, mas antes como um pródigo doador do mesmo, pois a instituição já era activa quando foi objecto das suas preferências.

Uma outra versão, segundo Conde D. Pedro, no seu Nobiliário, assinala que foi D. Sesnado Hueriz, filho de D. Soeiro de Brito, quem fundou o mosteiro de Oliveira.

Neste sentido, aponta igualmente, D.Fr. Timóteo dos Martires porquanto afirma que “Dom Sesnando Sueris, filho de Do Sueiro de Brito, e consequentemente neto do fundador deste mosteiro (D Arias de Brito), o que mudou do lugar de Perrelos, pera este sitio de Oliveira a onde de novo o restaurou a fundamentis e lhe fes doação de todas as suas rendas, e senhorios, a o memso Abbade Dom Antam, pera a fabrica, é sustentação dos seus conegos, em os, 22, de Abril da Era, M.Ixxj. que he Anno de, 1033”.

Divergente desta é a opinião de D. Nicolau de Santa Maria ao afirmar que D. Sesmando Hueriz não foi “senão restaurador e benfeitor, por que alem de acrescentar a Igreja, confirmou aos Conegos as doações feitas por Arias de Brito, e de novo lhe fez doação das pesqueiras do rio Ave”. Servimo-nos das palavras do cronista da Ordem para refutar a tese anterior, tanto mais que, no que resta do cartório do mosteiro, não se encontra nenhum documento que comprove que Dom Sesnando de Hueriz fundara esta instituição e, muito menos, datado de 1033, como pretende D.Fr. Timóteo dos Mártires. Coincidente com este ano, apenas existe uma carta de doação, em que, efectivamente, os doadores entregam um vasto património ao mosteiro superintendido, á época, pelo prelado D. Antão, sendo o nome dos seus outorgantes Marcos e Adosinda, e não D. Sesnando Sueris como pretendia D. Fr. Timóteo dos Mártires.

Pinho Leal no Portugal Antigo e Modemo afirma que um tal Soeiro de Brito, «reedificou e ampliou a egreja e o edifício do mosteiro, e lhe augmentou as rendas, entre ellas, a das pesqueiras do rio Ave, pelos anos de 1200». No entanto, Manuel Bernardino Araújo, contesta a possibilidade de D. Soeiro de Brito ser neto de Arias de Brito, pois segundo as palavras deste autor, tal “não parece ser possível, a não ser que uma das datas de 1033 e 1200 esteja errada, até mesmo se aceitamos que nesse tempo tão recuado «as vidas erão mais acrescidas e algumas de 120 anos» como escreveu o P. Jácome da Costa. Pode-se levantar a hipótese de a palavra neto não ser aqui utilizada no sentido de «filho de um filho», mas sim apenas, de descendente do ramo familiar. Todavia tudo nos leva a pensar que este Soeiro de Brito coincide com D. Sesnando Hueriz, o benfeitor a que alude D. Nicolau de Santa Maria.

Das três versões apontadas para a “fundação” de Santa Maria de Oliveira, a que seguidamente se analisará é a única que possui um suporte documental efetivo.

Assim, sabemos que a 20 de fevereiro de 1033 foi lavrado um documento, pelo qual Marcos e Adosina, sua esposa, doaram ao mosteiro de Santa Maria imenso bens, entre os quais aqueles que receberam de seu pai Arias na vila de Oliveira, que referem como sua “tertia integra” e a qual acrescentam as duas partes de seus irmãos.

Tal como fora exigido pelo cânon V do II Concilio de Braga, os doadores de Santa Maria de Oliveira contemplaram esta instituição com um alargado património, destinado a custear as despesas adscritas não só à liturgia como, também, à sustentação dos clérigos o que, alias constituía condição sine qua non para a sagração ou bênção de uma igreja.

É assim que se deve encarar o extenso rol de lugares de Marcos e Adosina entregaram ao mosteiro.

Todo este património seria destinado “pro vestimentum, vel tegumentum servorum, vel ancillarrum, que in isto vita sancta persisterint, sub manus patrocinio vel Abati vestro Atani”. O facto de estarmos em presença de doadores que, embora de condição social ignorada, eram grandes terratenentes, o que já fora apontado por Avelino Jesus da Costa.

A menção da forma como foi adquirida o património, apontando o nome do antigo proprietário e o processo pelo qual alineou os bens a Marcos e Adosinda, o que, muito provavelmente, teria como função legitimar a posse e usufruto do referido património agora doado e, concomitantemente, a capacidade dos seus proprietários dele disporem como lhes bem aprouvesse.